Caio F.
19 de ago. de 2010
Mas o que pode ser mais arrebatador nesse mundo do que o encontro entre duas pessoas? Para mim, reside aí todo o mistério da vida, a intenção mais genuína de um abraço. Encontrar alguém para encostar a ponta dos dedos no fundo do rio - é o máximo de encontro que pode existir, não mais que isso, nem mesmo no sexo. Encostar a ponta dos dedos no fundo do rio. E isso não é nada fácil, porque existem os dragões do abandono querendo, a todo instante, abocanhar os nossos braços e o nosso juízo."
[Rita Apoena]
18 de ago. de 2010
Caro senhor presidente eleito (Fernando Henrique Cardoso):
Sei que é uma ousadia dirigir-me ao senhor assim, desta maneira meio estabanada. Aprendi na escola, há tantos anos que já esqueci, que deveria dirigir-me ao senhor como "Vossa Excelência" ou algo assim. Mas hoje, ao despertar muito cedo neste Hotel Schwanenwik, que parece saído de um filme dos anos 40, espiando pela janela as árvores começando a ficar douradas no parque em frente ao lago, me surpreendi pensando com força e fé no senhor e no Brasil.
Nos últimos dias, li nos jornais europeus que o senhor foi eleito sem necessidade de um segundo turno. Não votei no senhor. Aliás, não votei em ninguém. Estava em trânsito, em Porto Alegre, e embarquei para Frankfurt um dia após as eleições, quando a sua vitória já era dada como certa. E embora talvez o senhor não fosse meu candidato, fico feliz. Devo dizer que o senhor me parece muitíssimo mais, digamos, preparado, que todos os outros seus antecessores. Amigos europeus e desconhecidos que fazem perguntas nas leituras e debates que ando fazendo por aqui com outros escritores também parecem pensar o mesmo. Por favor, não nos decepcione.
É grande a nossa esperança, snehor presidente. E falo não como escritor ou jornalista, mas como brasileiro comum. Tão comum que nada tenho e, nos últimos anos, não fosse direitos autorais vindos do estrangeiro e a lealdade de muitos amigos, estria desempregado e passando dificuldades. Porque ando pelas ruas, porque entro nos bares e vejo as caras sofridas das pessoas pelas esquinas, posso dizer ao senhor com segurança: estamos cansados, senhor presidente. E é no senhor que confiamos, acima de tudo, para dar jeito nesse grande cansaço que já vem de anos.
Vem do golpe militar que cortou os sonhos de uma geração inteira; vem daquela morte misteriosa de Tancredo Neves; vem do desastre de José Sarney e principalmente da vergonhosa catástrofe que foi Fernando Collor.
Vem de muito antes disso, talvez desde que os colonizadores mataram nossos índios, dizimaram nossas matas, levaram nosso ouro. Há quase 500 anos, sempre fomos escravos, roubados, humilhados. Nos últimos tempos esse cansaço nosso aumentou, com a impunidade dos corruptos e o empreguismo fácil que se tornou a política. Os senhores ganham muito bem, senhor presidente, e a maioria de nós morre de fome.
O que quero pedir, quando penso no senhor, olhando pela janela aberta desta cidade estrangeira, não tem nada de extraordinário. Nós queremos comida, senhor presidente. Queremos trabalho, escolas. Queremos saúde e um mínimo de segurança para andarmos nas ruas sem o risco de sermos atingidos por alguma bala perdida. Queremos um mínimo de honestidade, e esperamos que o senhor reforce a nossa auto-estima como brasileiros, não através de um nacionalismo irracional e perigoso, mas apenas por termos satisfeitas as nossas necessidades humanas básicas.
Por favor, não gaste à toa o dinheiro dos nossos impostos. Por favor, preste atenção na infinidade de mendigos que apodrecem pelas ruas de nossas cidades. Não queremos ser o Haiti nem Ruanda, mas apenas um país decente. E temos medo enorme que logo após a sua posse, esse Plano Real que tanto ajudou a elegê-lo, desabe sobre nossas cabeças com uma inflação de 100% ao mês. Estamos tão cansados de mentiras, promessas, aparências, fraudes, ilusões. Nós queremos gostar do senhor, senhor presidente, queremos tanto confiar no senhor. Nós entregamos os nossos destinos nas suas mãos, com boa fé e boa vontade.
E é por tudo isso e muito mais que, daqui de muito longe, quase na Escandinávia, tenho a ousadia de concluir pedindo: pense bem, senhor presidente, no que vai fazer com as nossas vidas. Pode ser bom, isso a ser feito, pode ser nobre e grandioso. Depende um pouco de nós, que temos sido tão pacientes, mas depende principalmente do senhor. Seja justo, honesto, amoroso. Boa sorte.
(Caio Fernando Abreu para O Estado de São Paulo em 16/10/1994)
16 de ago. de 2010
Alivia a minha alma; Faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha; Faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade; Faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte; Faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária;
Faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta; Faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito; Faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la;
Abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma, pois senão não poderei sentir que Deus me amou; Faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém.
(Clarice Lispector)
15 de ago. de 2010
Que de algum modo, ou vários, te sinto, não posso te tocar, nem sequer te olhar os olhos mais expressivos do mundo. Mas isso não evita - talvez para o meu azar - que você esteja sempre perto de mim, respirando, sobrevivendo teimosa, passeando pelos meus delírios mais lúcidos, também pelos meus sonhos mais gananciosos, e quem dera, um dia pelas minhas mãos. E te conto, porque não? te grito, te informo, divido contigo a perdição, a loucura, esperança, ilusão, insensatez unica que me permito há anos. Se você me ouve de forma correta, se me entende, se te importa, já é outra questão. Estou aprendendo a não temer as coisas separando-as, mesmo que se atraiam devolta mais tarde ou em seguida, ou que se expulsem ferózes uma da outra qualquer dia e sem remédio voltem ao pó. Por agora estou confessando, ainda que nada em absoluto do que eu diga nos resolva ou te traga até mim.
JC
Valentim era, como eu, sozinho. Eu tinha sido traída por uma pessoa, ele pelo destino. Mas, ao contrário de mim, não conseguia deixar partir de verdade quem se fora.
Eu sabia que era preciso tempo. Cada perda tem sua hora de acabar, cada morto seu prazo de partir, e não depende muito da vontade da gente. Ele não estava curado.
(…)
Acordo com Valentim ao meu lado. Passo de leve a mão em seu rosto adormecido, acompanho com o dedo o contorno de sua boca, beijo seu ombro e me aconchego mais nele: aqui é o meu lugar no mundo. E o dele também. Do nosso jeito, estamos construindo – mais uma vez – a vida.
A dor faz parte.
Eu sabia que era preciso tempo. Cada perda tem sua hora de acabar, cada morto seu prazo de partir, e não depende muito da vontade da gente. Ele não estava curado.
(…)
Acordo com Valentim ao meu lado. Passo de leve a mão em seu rosto adormecido, acompanho com o dedo o contorno de sua boca, beijo seu ombro e me aconchego mais nele: aqui é o meu lugar no mundo. E o dele também. Do nosso jeito, estamos construindo – mais uma vez – a vida.
A dor faz parte.
Lya Luft in “O silêncio dos amantes”
(...) deixai-os namorar, porque eles têm cada dia menos lugares onde ir esconder seus anseios. Deixai-os se beijarem à vontade, porque o que em seus beijos irrita os burgueses moralizantes é justamente essa liberdade, essa beleza, essa poesia, esse vôo que há num beijo de amor. Tréguas aos namorados!
- Vinicius de Morais
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